Formação profissional surge como nova fronteira no mercado de leilões

Projeto de integração entre Brasil e Argentina pretende reunir investidores, leiloeiros, empresas de tecnologia e instituições de ensino para desenvolver uma plataforma bilateral de capacitação profissional

O avanço dos leilões eletrônicos no Brasil vem transformando uma atividade tradicional em um ecossistema que reúne tecnologia, serviços financeiros, avaliação de ativos, logística, segurança da informação, comunicação digital e gestão pública.

Veículos, imóveis, máquinas, equipamentos, estoques empresariais, ativos judiciais e bens públicos passaram a alcançar compradores de diferentes regiões por meio de plataformas digitais. A ampliação do mercado, entretanto, também expôs uma deficiência estrutural: a ausência de uma formação profissional integrada para os diferentes agentes que participam dessas operações.

Enquanto empresas investem em plataformas, meios de pagamento, inteligência artificial, transmissão ao vivo e automação de processos, grande parte do conhecimento necessário à realização dos leilões ainda é transmitida de maneira fragmentada, principalmente pela experiência prática.

Esse cenário começa a despertar a atenção de empresários e profissionais do Brasil e da Argentina, que estudam a criação de um instituto bilateral de ensino voltado ao mercado de leilões e subastas.

A proposta busca aproximar a experiência operacional e tecnológica brasileira do modelo de formação profissional existente na Argentina, criando uma estrutura educacional capaz de atender leiloeiros, martilleros, avaliadores, gestores de ativos, advogados, servidores públicos, profissionais de tecnologia e empresas que utilizam leilões como instrumento de venda.

Integração começou em congresso na Argentina

A iniciativa ganhou força durante o 2º Congreso Nacional de Subastas Electrónicas, realizado em 18 de setembro, em Córdoba, na Argentina.

O encontro reuniu profissionais do mercado, integrantes do Judiciário, representantes da administração pública, empresas de tecnologia e especialistas em leilões eletrônicos.

O empresário brasileiro Cristiney Soares participou do evento como expositor internacional, apresentando experiências relacionadas à transformação digital dos leilões, à gestão de veículos removidos e ao desenvolvimento de soluções tecnológicas para operações públicas e privadas.

Durante o congresso, as discussões evidenciaram que Brasil e Argentina possuem estruturas profissionais diferentes, mas enfrentam desafios semelhantes relacionados à segurança jurídica, digitalização, qualificação, transparência e formação de novos profissionais.

“A Argentina possui uma tradição acadêmica mais estruturada na formação dos martilleros. O Brasil, por outro lado, acumulou uma experiência relevante em plataformas eletrônicas, gestão de grandes operações e integração tecnológica. A combinação desses conhecimentos pode gerar um modelo educacional próprio para a realidade latino-americana”, afirma Soares.

Um mercado maior do que a sessão de lances

O leilão costuma ser identificado apenas pelo momento da disputa entre os participantes. Do ponto de vista econômico, porém, ele movimenta uma cadeia mais ampla.

Antes da venda, existem atividades de captação, avaliação, regularização documental, formação de lotes, produção de imagens, divulgação e habilitação dos interessados. Depois da arrematação, entram os processos de pagamento, logística, transferência, baixa, prestação de contas e atendimento ao comprador.

Essa cadeia abre oportunidades para empresas de tecnologia, instituições financeiras, seguradoras, avaliadores, escritórios jurídicos, operadores logísticos, produtores de conteúdo e especialistas em dados.

Também existem possibilidades em diferentes segmentos, como leilões judiciais, extrajudiciais, públicos, imobiliários, rurais, industriais, automotivos e de ativos empresariais.

Apesar dessa diversidade, o setor ainda carece de uma estrutura educacional que prepare profissionais para compreender o processo completo e atuar com padrões comuns de governança, ética e segurança.

“O mercado não necessita apenas de mais plataformas. Ele precisa de pessoas preparadas para operar essas tecnologias, compreender as responsabilidades envolvidas e desenvolver novos modelos de negócio”, observa Soares.

Projeto busca investidores e parceiros estratégicos

A proposta do futuro instituto ainda está em fase de desenvolvimento e validação. Nome, estrutura societária, modelo jurídico, grade acadêmica e parcerias institucionais não foram definidos de maneira definitiva.

A iniciativa começou a ser discutida a partir da aproximação entre profissionais ligados à EBL Online, no Brasil, e à eSubasta, na Argentina. O objetivo é ampliar esse núcleo inicial com a participação de leiloeiros, martilleros, investidores, universidades, empresas de tecnologia e organizações interessadas na profissionalização do setor.

A implantação deverá ocorrer de forma gradual. A primeira etapa poderá reunir conteúdos gratuitos, eventos digitais e cursos introdutórios em português e espanhol. A resposta do mercado servirá para validar a demanda e orientar a criação de programas pagos, especializações e formações de maior duração.

Entre as áreas consideradas para a estrutura curricular estão:

– Direito aplicado aos leilões;

– Avaliação e preparação de ativos;

– Leilões judiciais, administrativos e privados;

– Gestão empresarial e posicionamento profissional;

– Plataformas eletrônicas e segurança da informação;

– Meios de pagamento e prevenção a fraudes;

– Marketing, comunicação e formação de público;

– Governança, auditoria e rastreabilidade;

– Inteligência artificial e análise de dados;

– Transmissões ao vivo e experiências de live commerce.

O projeto poderá utilizar um modelo híbrido, combinando ensino a distância, aulas ao vivo, encontros presenciais, congressos e intercâmbio entre profissionais dos dois países.

Capital estratégico além do investimento financeiro

A busca por investidores não está limitada ao aporte financeiro. O instituto precisará reunir diferentes formas de capital estratégico.

Leiloeiros e martilleros poderão contribuir com experiência prática e conteúdo. Universidades poderão participar da construção acadêmica e da certificação dos programas. Empresas de tecnologia poderão fornecer ambientes de ensino, laboratórios e ferramentas digitais. Investidores poderão apoiar a expansão da operação, o desenvolvimento dos produtos educacionais e a entrada em novos mercados.

Órgãos públicos e empresas detentoras de ativos também poderão contribuir para a definição das competências que esperam dos profissionais e prestadores de serviços do setor.

A possibilidade de oferecer conteúdos em português e espanhol amplia o mercado potencial e permite que a iniciativa alcance outros países da América Latina. A região compartilha desafios relacionados à digitalização, segurança jurídica, qualificação e transparência na alienação de bens.

Educação como infraestrutura de mercado

A tese por trás do projeto é que a educação deve ser tratada como parte da infraestrutura necessária ao crescimento sustentável dos leilões.

Plataformas podem ampliar o alcance das vendas. Soluções financeiras podem facilitar os pagamentos. Ferramentas de dados podem melhorar a tomada de decisão. Nenhuma dessas tecnologias, entretanto, substitui a necessidade de profissionais qualificados.

A formação de pessoas reduz riscos operacionais, melhora a qualidade das informações, fortalece a segurança jurídica e amplia a confiança de vendedores, compradores e investidores.

“O setor de leilões possui espaço para crescer, mas esse avanço precisa ser acompanhado de profissionalização. Queremos construir uma iniciativa aberta à participação de quem possa agregar conhecimento, tecnologia, capital e experiência”, afirma Cristiney Soares.

A próxima etapa será estabelecer uma rede inicial de parceiros, validar o formato dos primeiros cursos e aprofundar as conversas com investidores, profissionais do mercado e instituições educacionais.

Mais do que criar uma escola, a proposta é desenvolver um ambiente de formação, pesquisa e conexão empresarial capaz de fortalecer o mercado brasileiro e aproximá-lo de outros ecossistemas latino-americanos.

Sobre Cristiney Soares

Cristiney Soares é empresário, escritor e especialista em gestão de veículos removidos, pátios, tecnologia e leilões. Possui mais de duas décadas de experiência nos setores público e privado e participou de operações relacionadas ao processamento e à alienação de mais de 200 mil veículos em diferentes regiões do Brasil.

Está à frente da WEBZI Pesquisa & Inovação Tecnológica e da Empresa Brasileira de Leilões (EBL Online). Em setembro de 2026, participou como expositor internacional do 2º Congreso Nacional de Subastas Electrónicas, realizado em Córdoba, na Argentina.

www.webzi.com.br

@cristineyssantos

Autor

Compartilhe